Gestão
Além da prática clínica: a liderança médica como competência essencial na formação contemporânea
Ana Zeile Melo Rolim
Como médica, gestora e pesquisadora no campo da educação médica, vivencio diariamente os desafios impostos pela crescente complexidade dos cenários de saúde no Brasil. É inegável que a formação acadêmica nos confere uma base científica robusta e um raciocínio diagnóstico e terapêutico refinado. No entanto, quando surge a necessidade de coordenar equipes multidisciplinares, gerir rotinas assistenciais sobrecarregadas e mediar conflitos sob pressão, fica claro que a excelência técnica, isoladamente, não dá conta de todas as exigências da profissão.
A excelência técnica, isoladamente, não abrange todas as exigências do exercício médico.
O marco regulatório das DCNs de 2025 e a realidade da graduação
A urgência desse debate é reforçada pelas atualizações regulatórias do ensino médico no país. As Diretrizes Curriculares Nacionais (DCNs) do curso de Graduação em Medicina, atualizadas pela Resolução CNE/CES nº 3, de 30 de setembro de 2025, ratificam que a formação médica deve se estruturar sobre três eixos indissociáveis: Atenção à Saúde, Gestão em Saúde e Educação em Saúde. O texto normativo destaca a obrigatoriedade de desenvolver competências voltadas à tomada de decisão, à liderança colaborativa e interprofissional e à melhoria contínua da qualidade e da segurança do cuidado.
Ainda assim, persiste um distanciamento entre o texto regulatório e o cotidiano das escolas médicas. Análises do Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica (ENAMED) de 2025 e dados da Demografia Médica no Brasil 2025 mostram que, diante da expansão acelerada dos cursos de Medicina, muitos egressos ingressam no mercado sem o devido domínio das soft skills e das competências de gestão. Um modelo pedagógico ainda centrado na doença, em detrimento da visão sistêmica, perpetua essa lacuna na formação de líderes.
Os impactos diretos da deficiência de liderança
A ausência de um treinamento estruturado em liderança gera repercussões em pelo menos três dimensões críticas da prática médica:
Saúde mental do profissional — levantamentos do Conselho Federal de Medicina (CFM) e pesquisas da Revista Brasileira de Educação Médica (RBEM) apontam prevalência alarmante da Síndrome de Burnout entre médicos brasileiros. Sem ferramentas de inteligência emocional, gestão do tempo e negociação, o profissional tenta absorver individualmente as falhas estruturais dos serviços.
Segurança do paciente — diretrizes da OMS e estudos nacionais mostram que a maioria dos eventos adversos evitáveis em ambiente hospitalar decorre de ruídos na comunicação interprofissional. Sem uma liderança pautada na empatia e na clareza, instala-se um ambiente hierarquizado e defensivo, em que outros profissionais hesitam em apontar riscos.
Eficiência na gestão dos processos de saúde — médicos alçados a funções de coordenação sem preparo gerencial prévio enfrentam dificuldades na otimização de fluxos e na alocação de recursos, gerando desperdícios operacionais e desgaste institucional.
Redefinindo a liderança na medicina atual
É preciso superar o estereótipo do líder médico autocrático, apoiado exclusivamente em hierarquia rígida. A liderança médica contemporânea se sustenta em modelos transformacionais e colaborativos: a capacidade de inspirar a equipe, promover um clima psicologicamente seguro, comunicar-se com assertividade e aplicar uma gestão baseada em evidências e em valor para o sistema de saúde.
Liderar implica também o exercício contínuo do autoconhecimento e da postura ética como exemplo de conduta. Quando o médico atua como líder facilitador, as equipes trabalham de forma sinérgica, os processos fluem com mais eficácia e o ambiente assistencial se torna mais humano e sustentável.
O papel transformador da pós-graduação
Enquanto a graduação ainda enfrenta desafios estruturais para implementar plenamente as determinações das DCNs de 2025, o desenvolvimento continuado torna-se um passo decisivo na carreira médica. A pós-graduação surge como o espaço ideal para consolidar competências gerenciais, aprimorar a tomada de decisão sob incerteza e desenvolver estratégias efetivas de liderança de pessoas.
Investir na capacitação em liderança não é apenas um diferencial no mercado de trabalho — é um compromisso ético com a qualidade da medicina entregue à sociedade. Apenas com profissionais preparados para liderar com competência técnica, sensibilidade humana e visão estratégica seremos capazes de transformar a realidade da saúde em nosso país.
Referências
BRASIL. Ministério da Educação. Conselho Nacional de Educação. Resolução CNE/CES nº 3, de 30 de setembro de 2025. Institui as Diretrizes Curriculares Nacionais do Curso de Graduação em Medicina. Diário Oficial da União, Brasília, 30 de setembro de 2025.
MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO (MEC). Parecer CNE/CES nº 536/2025 sobre a aprovação das Diretrizes Curriculares Nacionais do Curso de Graduação em Medicina.
Estudos e dados sobre o Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica (ENAMED 2025) e a Demografia Médica no Brasil 2025.
Revista Brasileira de Educação Médica (RBEM) — publicações sobre competências gerenciais, saúde mental dos profissionais de saúde e liderança na prática médica.
Conselho Federal de Medicina (CFM) — relatórios institucionais. Organização Mundial da Saúde (OMS) — recomendações sobre segurança do paciente e trabalho interprofissional.
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