Saúde

Além da respiração: a importância da fisioterapia cardiorrespiratória no ambiente hospitalar

Adriano Lúcio Pereira de Araújo

Em um leito hospitalar, ações aparentemente simples, como respirar profundamente, tossir, sentar-se ou dar alguns passos, podem representar importantes avanços na recuperação. Durante uma internação, especialmente nos casos mais graves, preservar a capacidade respiratória, a força muscular e a autonomia tornam-se tão importante quanto tratar a doença que levou o paciente ao hospital.

É nesse cenário que a fisioterapia cardiorrespiratória exerce um papel essencial. Presente em enfermarias, unidades de terapia intensiva, serviços de urgência e emergência e setores de pós-operatório, essa área acompanha o paciente em diferentes momentos do cuidado: da instabilidade clínica à preparação para uma alta mais segura.

O cuidado começa pela avaliação

A atuação do fisioterapeuta começa com uma avaliação individualizada das condições respiratórias, cardiovasculares e funcionais. São considerados aspectos como padrão respiratório, oxigenação, presença de secreções, força muscular, mobilidade, nível de consciência e capacidade de realizar atividades.

A partir dessa análise, o profissional estabelece o diagnóstico e o prognóstico fisioterapêuticos, planeja as condutas e acompanha a resposta do paciente ao tratamento. No Brasil, a regulamentação profissional reconhece, entre as competências do fisioterapeuta intensivista, a avaliação do paciente crítico, o gerenciamento do suporte ventilatório e a aplicação de técnicas de expansão pulmonar, remoção de secreções, fortalecimento muscular e recondicionamento cardiorrespiratório (COFFITO, 2011).

Respirar melhor exige condutas individualizadas

Entre as intervenções que podem ser realizadas estão o posicionamento terapêutico, os exercícios respiratórios, as técnicas de expansão pulmonar e os recursos destinados à remoção de secreções. No entanto, essas condutas não devem ser aplicadas de maneira automática ou padronizada para todos os pacientes.

As diretrizes recomendam que as técnicas de higiene brônquica sejam utilizadas a partir de indicações clínicas específicas, considerando fatores como retenção de secreções, dificuldade para tossir e fraqueza da musculatura respiratória. Em determinadas condições, a mobilização e a orientação para uma tosse eficaz podem ser mais adequadas do que a aplicação rotineira de técnicas tradicionais (STRICKLAND et al., 2013).

Esse cuidado individualizado permite que a fisioterapia seja direcionada às necessidades reais do paciente, evitando intervenções desnecessárias e contribuindo para uma assistência mais segura e baseada em evidências.

Da ventilação mecânica à respiração espontânea

Nos pacientes que necessitam de ventilação mecânica invasiva ou não invasiva, o fisioterapeuta participa do acompanhamento e da adaptação ao suporte ventilatório. Sua atuação envolve a avaliação da interação entre o paciente e o equipamento, a monitorização da resposta clínica e a participação no processo de retirada gradual da ventilação mecânica.

Esse processo, conhecido como liberação ou desmame ventilatório, precisa ser realizado de forma planejada. Diretrizes da American Thoracic Society e do American College of Chest Physicians recomendam a utilização de protocolos de liberação ventilatória e de reabilitação direcionados à mobilização precoce em adultos submetidos à ventilação mecânica por mais de 24 horas (GIRARD et al., 2017).

Mais do que retirar um equipamento, o objetivo é verificar se o paciente possui condições respiratórias, musculares e funcionais para voltar a respirar de forma espontânea e segura.

Recuperar o movimento também faz parte do tratamento

A atuação da fisioterapia cardiorrespiratória não se limita aos pulmões. A imobilidade prolongada, o repouso no leito e a gravidade da doença podem provocar perda de força muscular, redução da mobilidade e dificuldade para realizar atividades básicas.

Por isso, sempre que as condições clínicas permitem, a mobilização deve começar ainda durante a internação. Mudar de posição no leito, sentar-se, permanecer em pé e voltar a caminhar são etapas de um processo conduzido progressivamente, de acordo com a segurança e a tolerância de cada paciente.

Revisões sistemáticas indicam que a mobilização e a reabilitação realizadas na UTI podem melhorar a força muscular, a mobilidade e a independência funcional. A reabilitação precoce também pode reduzir a ocorrência de fraqueza adquirida na unidade de terapia intensiva, condição que pode comprometer a recuperação mesmo após a alta hospitalar (TIPPING et al., 2017; ANEKWE et al., 2020).

Entretanto, a intensidade das intervenções precisa ser cuidadosamente definida. Mobilizar precocemente não significa realizar exercícios intensos de forma indiscriminada, mas iniciar atividades compatíveis com o estado clínico, os limites e os objetivos terapêuticos de cada pessoa.

Um cuidado construído por diferentes profissionais

No ambiente hospitalar, a recuperação do paciente depende da integração entre diferentes áreas da saúde. Médicos, fisioterapeutas, enfermeiros, nutricionistas, terapeutas ocupacionais, fonoaudiólogos, psicólogos e outros profissionais compartilham informações e constroem estratégias de cuidado.

Nesse contexto, o fisioterapeuta não atua somente como executor de técnicas. Ele avalia continuamente a resposta ao tratamento e participa das decisões relacionadas ao suporte ventilatório, à mobilidade, à funcionalidade e à prevenção dos efeitos da imobilidade.

Essa integração é especialmente importante nos pacientes críticos, cujas condições podem mudar rapidamente e exigir ajustes constantes nas condutas.

A recuperação continua depois da alta

Receber alta hospitalar não significa apenas apresentar estabilidade clínica. É necessário considerar se o paciente consegue respirar com segurança, levantar-se, caminhar, realizar atividades cotidianas e retomar, gradualmente, sua vida familiar, social e profissional.

A fisioterapia contribui para que a recuperação não seja avaliada somente pela sobrevivência ou pela resolução da doença, mas também pela capacidade funcional preservada ou recuperada. Afinal, o verdadeiro resultado do cuidado hospitalar também está relacionado às condições em que o paciente retorna para casa.

Assim, a fisioterapia cardiorrespiratória vai muito além do cuidado com a respiração. Sua atuação reúne conhecimento técnico, avaliação contínua, trabalho multiprofissional e atenção às necessidades individuais. Ao cuidar da função pulmonar, do movimento e da autonomia, o fisioterapeuta contribui para que o paciente atravesse a internação com mais segurança e encontre melhores possibilidades de retomar sua vida.

Referências

ANEKWE, David E. et al. Early rehabilitation reduces the likelihood of developing intensive care unit-acquired weakness: a systematic review and meta-analysis. Physiotherapy, v. 107, p. 1–10, 2020. DOI: 10.1016/j.physio.2019.12.004.

CONSELHO FEDERAL DE FISIOTERAPIA E TERAPIA OCUPACIONAL — COFFITO. Resolução nº 402, de 3 de agosto de 2011. Disciplina a Especialidade Profissional Fisioterapia em Terapia Intensiva e dá outras providências. Brasília, DF: COFFITO, 2011.

GIRARD, Timothy D. et al. An official American Thoracic Society/American College of Chest Physicians clinical practice guideline: liberation from mechanical ventilation in critically ill adults: rehabilitation protocols, ventilator liberation protocols, and cuff leak tests. American Journal of Respiratory and Critical Care Medicine, v. 195, n. 1, p. 120–133, 2017. DOI: 10.1164/rccm.201610-2075ST.

STRICKLAND, Shawna L. et al. AARC clinical practice guideline: effectiveness of nonpharmacologic airway clearance therapies in hospitalized patients. Respiratory Care, v. 58, n. 12, p. 2187–2193, 2013. DOI: 10.4187/respcare.02925.

TIPPING, Claire J. et al. The effects of active mobilisation and rehabilitation in ICU on mortality and function: a systematic review. Intensive Care Medicine, v. 43, n. 2, p. 171–183, 2017. DOI: 10.1007/s00134-016-4612-0.

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